“The Camarinha Project” valoriza causa ambiental (entrevista)

14 de Agosto, 2021 0 Por A Voz de Esmoriz

A Camarinha é uma espécie vulnerável ou mesmo em risco de desaparecimento devido em grande parte à fragmentação do seu habitat e a espécies invasoras. Por outro lado, o seu fruto tem sido bastante elogiado pelos cidadãos (as bagas costumam aparecer no Verão). Destinada a valorizar e a defender a importância desta espécie, nasceria uma nova iniciativa – “The Camarinha Project” que vela por uma área de referência que compreende o Perímetro Florestal das Dunas de Ovar, vulgo a zona da “Floresta” de Ovar. A presença das camarinhas em Esmoriz é ainda muito residual. A situação é um pouco melhor, por exemplo, em Cortegaça e Maceda. A entidade aproveita, desde já, para lançar um desafio a quem conseguir encontrar Camarinhas em Esmoriz que as fotografe e envie, juntamente com a informação do local, para a página do projecto nas redes sociais.

1- Bom dia. Como nasceu a ideia deste projecto que teve a curiosidade de se inspirar numa planta arbustiva que gera um fruto comestível e apelativo?

R: A Camarinha está associada às memórias de verão da nossa infância.

De há alguns anos para cá, apercebemo-nos que era cada vez mais difícil encontrar Camarinhas na zona da “Floresta”, onde, antigamente, existiam em abundância. Igualmente, notámos que, da parte das gerações mais novas, havia um quase total desconhecimento em relação a esta planta.

Contudo, à medida que procurámos informação sobre a Camarinha, ficámos fascinados com aquilo que íamos descobrindo. Por exemplo, esta é uma planta exclusiva das dunas da Península Ibérica. Além disso, tanto a planta como o seu fruto reúnem características únicas e estão associados a um conjunto de curiosidades históricas e etnográficas.

Também, ficámos a conhecer diversos trabalhos de campo em curso que se deparam com a grande dificuldade de propagação desta espécie em cativeiro. Daí que sentimos que era fundamental a proteção da planta no seu habitat natural.

Pela observação das Camarinhas na zona da “Floresta” percebemos que a diminuição das mesmas estaria relacionada, entre outras causas, com propagação rápida e descontrolada de espécies exóticas (maioritariamente as “acácias”) que acabam por se sobrepor à vegetação dunar natural.

Mais, constatámos que até as próprias entidades governamentais procediam ao corte destas plantas, sob o pretexto de que era necessário “limpar a floresta”. Esta foi a “gota de água”, sentimos que era urgente fazer algo para divulgar e preservar a Camarinha, e que podíamos dar o nosso contributo iniciando este Projecto.

2- Quem foram as responsáveis pelo surgimento deste projecto? Como é composta a vossa equipa de voluntários?

R: As primeiras atividades do projeto foram organizadas pelo Bruno Almeida, a Margarida Coelho e a Sílvia Rocha. Contudo, já somos muitos mais e outros voluntários se vão associando e colaborando nas iniciativas deste projeto. Um dos objetivos é conseguirmos reunir o maior número de membros em volta do projeto. Pois o desafio que temos pela frente é gigantesco.

3- Tivemos conhecimento de que chegaram a realizar algumas actividades no Parque Ambiental do Buçaquinho. Que tipo de realizações chegaram a empreender nesse espaço?

R: No Parque Ambiental do Buçaquinho, com o apoio da Câmara Municipal de Ovar, realizámos o ciclo “À (re)descoberta da Camarinha”, preenchido com palestras e saídas de campo direcionadas à população geral.

Na primeira sessão, ocorrida a 30 de março de 2019, com o tema “Camarinha – a flor” contámos com a presença da Professora Rosa Pinho, responsável pelo herbário da Universidade de Aveiro. Apresentou a palestra com o tema: “Flora dunar, conhecer para preservar”. Neste dia, os investigadores Jael Palhas e Francisco López, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, falaram-nos sobre: “A ameaça das espécies invasoras ao habitat das Camarinhas”.

A segunda sessão, subordinada ao tema “Camarinhas – as pérolas das dunas”, decorreu a 31 de agosto de 2019. Contámos com a presença das Professoras Aida Silva e Maria João Barroca, investigadoras da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra e Unidade de Química-Física Molecular da Universidade de Coimbra, que abordaram o tema: “Há química entre as Camarinhas: do folclore gastronómico aos nutracêntricos”.

Ainda, contámos com a presença dos Professores António Duarte e Paula Costa, pertencentes ao Agrupamento de Escolas Guia-Pombal, que nos falaram do projeto desenvolvido por eles, entre 2015 e 2016, intitulado: “Camarinha, um dos segredos da Baleia”, o qual obteve uma Menção Honrosa na mostra final do Projeto “Ciência na Escola” – Fundação Ilídio Pinho.

4- As camarinhas são raras? Em que zonas do nosso planeta podemos encontrá-las?

R: A Camarinha (Corema album) é uma espécie endémica das zonas dunares do litoral oeste da Península Ibérica (e Açores). Ou seja, só pode ser encontrada nessas áreas.

Pelas informações que obtivemos de voluntários da região da Galiza, a presença das camarinhas nessa região sofreu um enorme declínio e, atualmente, a sua presença é residual.

No extremo leste da sua área de distribuição, no sul de Espanha, foi avaliada como Vulnerável nas listas regionais da Andaluzia e Comunidade Valenciana.

A figura 1 mostra a distribuição (aproximada) da Camarinha, em Portugal, de acordo com o site flora on.

,

Figura 1. Distribuição da espécie Corema album em Portugal.
Imagem retirada de http://www.flora-on.pt/#wCorema+album. Consulta realizada em 26/07/2021



5- Muitas pessoas procuram agora as camarinhas (isto é, o seu fruto), até mesmo em Esmoriz e Cortegaça. Além do seu sabor implícito (e de ser cobiçada para fins gastronómicos), diz-se agora que as camarinhas poderão ter propriedades anti-cancerígenas. Receiam que isso despolete uma procura desenfreada à camarinha, colocando em causa a sua preservação ambiental?

R: Sim, é um dos nossos receios! A Camarinha tem propriedades únicas das quais todos podemos beneficiar. Mas é importante que as pessoas entendam que é importantíssimo garantir a conservação da Camarinha no seu habitat natural. É uma planta que precisa de condições muito específicas para se desenvolver. Também, é importante que se invista na investigação de processos de propagação da Camarinha que permitam a sua utilização em larga escala, sem comprometer a viabilidade das populações naturais.

6- Têm alertado para a necessidade de remoção das plantas infestantes. Sentem que pouco tem sido feito neste país sobre este dossier em específico?

R: Infelizmente, pouco! Tanto a nível nacional, como a nível regional, que nos toca diretamente. Há pouquíssimo controlo de plantas invasoras, como é o caso da acácia e da erva-das-pampas.

Notamos muitas vezes que a população não está a par deste problema gravíssimo e não sabe identificar as espécies invasoras nem o impacto das mesmas na biodiversidade.

A nossa Barrinha e a zona da “Floresta” são áreas já bastante afetadas.

A expansão das acácias, em especial, é uma das razões principais para a regressão da distribuição da Camarinha. Esta é, indubitavelmente, uma questão central para nós.

Deste modo, gostaríamos de dinamizar ações de controlo de acácias, com arranque e corte das mesmas, dando prioridade a áreas onde as Camarinhas estejam ameaçadas por elas.

Ressalvamos o trabalho que tem sido desenvolvido a nível nacional pelo projeto “Invasoras” – uma parceria entre investigadores do Centro de Ecologia Funcional, da Universidade de Coimbra e da Escola Superior Agrária de Coimbra.

7- Relativamente à presença dos microplásticos nos ecossistemas marítimos, apregoam que a sensibilização das populações e das camadas mais jovens é fundamental?

R: Sim! A sensibilização deve ser dirigida a todos, uma vez que a entrada de microplásticos no mar resulta também de actos diários de todos.

8- Ao nível da adesão dos esmorizenses e restantes pessoas do concelho para os vossos eventos de cariz ambiental, o que pensa? Tem surgido uma boa afluência às vossas iniciativas ou ainda é necessário fazer chegar mais longe a vossa mensagem?

R: A adesão das pessoas às atividades tem sido bastante boa.

Nas primeiras abordagens, diziam-nos que atividades sobre plantas dificilmente atrairiam público. Todavia, a Camarinha não é uma planta qualquer! 🙂

Temos tido a participação de muitas pessoas que vêm às atividades por recordarem as camarinhas de tempos passados. Algumas pensavam até que esta planta já tinha desaparecido. Outras vêm mais pela questão da preservação da biodiversidade e da ameaça das plantas invasoras.

Gostaríamos de chegar a um público mais vasto, dar a conhecer a camarinha a quem nunca ouviu falar da mesma, e de sensibilizar mais pessoas para a questão da preservação da biodiversidade.

9- As alterações climáticas são um dos grandes desafios da Humanidade. Na vossa opinião, estamos no caminho certo ou podemos estar a cavar o nosso próprio fim, caso não consigamos encontrar um “planeta b” através da exploração espacial?

R: Pensamos que há muito trabalho a fazer! É urgente mudar o paradigma da nossa sociedade que está demasiado focada no consumo “excessivo” de bens e no açambarcamento dos recursos do planeta.

A solução passa por cada um de nós.


A equipa The Camarinha Project
Bruno Almeida
Margarida Coelho
Sílvia Rocha


Figura 2. Na foto, a Camarinha com os seus frutos



Imagem de Destaque da Entrevista: Os participantes na 2.ª ação no Parque Ambiental do Buçaquinho seguram a raiz de uma acácia arrancada (planta infestante). Créditos da Foto: João Dinis