Na passada segunda-feira, aconteceu algo que julgávamos todos ser impossível nos novos tempos tecnológicos. Ficamos todos sem electricidade e sem comunicações durante mais de dez horas (a partir das 11:33 até ao princípio da noite), tanto em Portugal como em Espanha, e em algumas partes da França.
Inicialmente, aquando do corte da energia, circularam inúmero boatos, nomeadamente de um ciberataque russo que teria afectado uma parte considerável da Europa. Contudo, tudo indica que o que aconteceu se deveu a uma desconexão da rede eléctrica espanhola, o que terá acontecido em apenas 5 segundos. Outras hipóteses levantadas apontam para um fenómeno atmosférico raro com oscilações ou até a incapacidade da rede em lidar com o aumento da produção de energias renováveis, contudo estas duas últimas teses foram já quase descartadas respectivamente pela REN e por Beatriz Corredor, presidente da Rede Eléctrica de Espanha. Certo, é que as averiguações e as auditorias independentes prosseguirão, e acreditamos que, ao fim de algumas semanas, se chegará à causa que presumivelmente terá sido uma falha ou avaria grave interna.
Mas vamos agora focar-nos na reacção social a este contratempo inesperado. Começamos por aquilo que correu bem. Exceptuando cinco mortes em Espanha, os danos humanos colaterais em Portugal foram praticamente nulos. É certo que houve um impacto económico, visto que as empresas queixam-se de milhões de prejuízos porque foi um dia que não contou para nada. Ainda assim, em termos de vidas humanas, correu melhor do que se esperava em Portugal. Apesar dos semáforos estarem desligados pela ausência de electricidade, a verdade é que os condutores souberam agir com civismo e prudência, e assim se evitaram colisões rodoviárias preocupantes ou atropelamentos fatais de peões.
Por outro lado, os bombeiros e os nossos polícias foram nevrálgicos para manter a ordem, mesmo que condicionados nas comunicações entre si. A rede SIRESP (sensível para as chamadas de emergência) voltou a falhar, tal como havia ocorrido nos incêndios terríficos de Pedrógão, mas mesmo assim a nossa Protecção Civil, a que esteve no terreno, foi importante para evitar males maiores. Também os hospitais funcionaram à base dos geradores.
No entanto, é preciso retirar ilações sobre o sucedido. E houve coisas que correram mal. A classe política portuguesa foi abdicando da independência energética nas últimas décadas, apesar de ter vendido a imagem de que o país seria já, em boa parte, auto-suficiente na produção de energia. E claro, bastava correr algo mal em Espanha para que Portugal não escapasse às consequências imediatas. Mais preocupante, foi a ausência da comunicação pelas altas entidades por via sms – é preciso arranjar formas diferentes ou alternativas de entrar em contacto com a população, a fim de se evitar o pânico social e desmistificar as histórias que por aí circularam. É certo que se usaram as rádios, e bem, contudo, a nosso ver, não foi suficiente.
Mas o pior de tudo foi mesmo a corrida desenfreada de muitos portugueses aos postos de combustíveis, aos garrafões de água (mas havia água da torneira em casa), ao pão e ao papel higiénico (este último, já se está a tornar num capricho insólito). É certo que a União Europeia aconselhou-nos a ter um pequeno kit de emergência em casa, mas o que se viu, nalguns casos, caiu no exagero, ficando a ideia de que, apesar dos simulacros e dos ensinamentos sociais, o egoísmo e o “salve-se quem puder” é que imperam nas horas difíceis, mesmo quando todos sabíamos, pelo menos, que não tinha havido um ataque nuclear ou o início de um conflito militar crítico.
Espero que a nossa classe política tenha retirado apontamentos. É preciso mais geradores em infraestruturas críticas, mas isso só por si não basta. O SIRESP voltou a falhar, as comunicações em massa não foram possíveis (é preciso arranjar uma alternativa), também é preciso apostar na educação para cenários de crise, e em casos de imprevistos mais duradouros e sérios (por exemplo: tempestades, sismos ou início de uma guerra em larga escala), adoptar uma regulamentação que combata o consumo excessivo para que todos possam ter acesso aos recursos básicos. Como diz o ditado, sermos surpreendidos uma vez, acontece, agora se voltar a acontecer, e não tivermos uma opção b, aí sim, será mesmo inaceitável.
Opinião de Pedro Henriques
Director do Jornal A Voz de Esmoriz
Créditos da Foto: Agreste Portal de Notícias