A força das marés e o recente mau tempo voltaram a redesenhar a linha de costa em Ovar, mas desta vez o recuo do areal trouxe à superfície uma relíquia do século passado. Na Praia de Maceda, a erosão costeira “desenterrou” um antigo poço de água doce, um elemento que fazia parte da memória coletiva dos habitantes locais, mas que estava oculto pelas areias há várias décadas.
Para os veraneantes mais jovens, a estrutura pode parecer apenas um amontoado de pedra e cimento, mas para os mais antigos, o poço é o símbolo de uma geografia que o mar engoliu. Antigamente, este local não estava na praia: situava-se em pleno pinhal, entre dois parques de estacionamento que serviam a zona balnear.
A relevância deste poço foi tal que chegou a atravessar fronteiras. Em tempos, a estrutura e a sua bomba de água manual foram mencionadas em revistas de promoção turística da Embaixada Portuguesa em Itália, que destacavam a singularidade de existir um poço de água potável no coração de uma zona florestal, a escassos metros das areias douradas do Atlântico.
O reaparecimento deste poço serve também como um testemunho visual da severidade da erosão costeira em Ovar. Onde antes existia uma estrada, mata densa e zonas de lazer, hoje resta apenas o avanço imparável do mar. O que outrora foi um ponto de encontro no meio do pinhal é agora uma ilha de memórias que resiste, precariamente, à força das marés.
Foto: Ovarnews