Festival Literário de Ovar abriu com chave de ouro e promete honrar legado de José Saramago

15 de Setembro, 2022 0 Por A Voz de Esmoriz

A edição de 2022 do Festival Literário de Ovar estreou-se oficialmente nesta passada quarta-feira com a primeira mesa de conversa literária que decorreu no auditório do Centro de Arte de Ovar. Espera-se que, durante o festival, estejam mais de 50 personalidades convidadas, entre as quais, escritores, editores, cronistas, romancistas, poetas, críticos literários e ilustradores.

O Festival Literário de Ovar assumirá um cariz descentralizador visto que as diversas tertúlias ou mesas eruditas serão distribuídas por diversos sítios do concelho. Serão assim proporcionadas conversas, leituras, oficinas, formações, exposições, representações teatrais e momentos musicais.

Durante cinco dias, o Festival Literário (decorre entre 14 e 18 de Setembro) irá inspirar-se no legado do escritor José Saramago, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1998, mas cujo nascimento ocorreu há 100 anos (o autor de “Memorial do Convento”, “Ensaio sobre a Cegueira”, “A Maior Flor do Mundo” ou “A Caverna” nasceu em 1922, na localidade da Azinhaga e daí assinalar-se o centenário do seu nascimento).

Na noite de abertura, o escritor vareiro Carlos Nuno Granja e Salvador Malheiro, Presidente da Câmara Municipal de Ovar, oficializaram o início do Festival Literário de Ovar e enfatizaram a importância da cultura e, em especial, da literatura na formação dos cidadãos, acreditando que este festival irá trazer consigo muitas experiências que enriquecerão a bagagem intelectual dos cidadãos que aderirem ao desafio de assistirem às dinâmicas.

Após estas intervenções, começou a 1ª mesa literária com a presença do convidado Álvaro Laborinho Lúcio e da moderadora Cristina Marques. Na plateia do Centro de Arte de Ovar, estavam cerca de 100 espectadores que assistiram à abertura do Festival.

Álvaro Laborinho Lúcio, antigo Ministro da Justiça e juiz jubilado do Tribunal Supremo de Justiça, deu a conhecer a sua veia de escritor, tendo já escrito romances (“O Chamador”, “O Homem que escrevia azulejos”, “O Beca da Liberdade”) bem como trabalhos e artigos científicos sobre a área da Justiça.

No entanto, o livro que originou uma interessante conversa intelectual foi a narrativa denominada “As Sombras de uma Azinheira”, publicada pelo interlocutor convidado em 2022, que abordava o antes e pós-25 de Abril de 1974, comparando o Portugal desses dois períodos e imprimindo um rigor histórico sobre os cenários verificados, embora inclua naturalmente a ficção inerente às personagens e seus movimentos.

A moderadora Cristina Marques elogiou a qualidade da obra visto que retrata uma época importante da história de Portugal, nomeadamente a transição do fascismo para a democracia com a revolução do 25 de Abril. Admite que ficou rendida à técnica narrativa adoptada por Álvaro Laborinho, exemplificando que o intervalo existente na obra acaba por ser um capítulo especial em que, de forma original, se colocam as personagens da narrativa a conversar umas com as outras e a questionar-se mutuamente sobre as intenções do autor que as colocou naquele cenário.

Segundo nos conta o escritor, a personagem principal da narrativa é talvez João Aurélio, um partidário dos ideais comunistas e que se assume como anti-fascista, acompanhando aquele período determinante em que Portugal acaba por abraçar a liberdade e a democracia. No entanto, o seu cepticismo permanece ao longo de todo o período porque João Aurélio não desiste do sonho ou da utopia da igualdade total entre os cidadãos. Álvaro Laborinho assume que João Aurélio é uma “personagem com uma vida dura”, sofre bastante, e chega ao ponto de falar com os mortos no cemitério, talvez porque do outro lado, num suposto além, estaria concentrada a “sabedoria universal”.

O escritor convidado assume que tem prazer em escrever ficção (e que, muitas vezes, esta pode levar-nos à verdade) porque gosta de se deslumbrar, criar vida, criar outras pessoas (personagens), colocá-las em permanente contacto umas com as outras, mas aquelas personagens só têm vida se existirem leitores para as observarem através da leitura da obra. Ressalvou que todos os momentos da vida do ser humano são importantes desde que queiramos fazer o bem com os outros. Frisou que a crítica ao seu novo livro “As Sombras de uma Azinheira” tem sido bastante positiva e encorajadora. Quanto à revolução do 25 de Abril de 1974, refere que estamos perto de celebrar 50 anos da sua ocorrência (irá comemora-se o cinquentenário em 2024) e que não vale a pena perdermos muito tempo em denunciar o que falhou ou ficou por se fazer, mas sim preparar os próximos 50 anos.

Também o sector da educação motivou uma reflexão durante a primeira mesa literária. Álvaro Laborinho refere que deve ser uma temática debatida na primeira linha, defendendo um modelo que seja inclusivo, integrador e exigente para que seja possível o sucesso profissional das gerações vindouras. Admitiu que, infelizmente, pouco se fala do insucesso escolar e que é redutor atribuir-se apenas a responsabilidade aos alunos, argumentando que há um modelo de ensino falível e que deve ser repensado de forma a criar-se uma escola de competências, meta que deve congregar os esforços de toda a comunidade educativa. No seu entender, os frutos do processo da reforma educativa poderão demorar muito tempo, mas certamente demorará mais se não começarmos já amanhã a gizar a mudança positiva que se exige.

Álvaro Laborinho elogiou ainda a iniciativa da Câmara Municipal de Ovar em promover um Festival Literário, reconhecendo que, com estes eventos, se cria um verdadeiro “caldo de cultura” em que se fomenta o espírito crítico e autónomo dos cidadãos. Salienta que o ser humano precisa de respostas para se poder encontrar no dia a dia. Relembrou ainda a herança cultural de José Saramago, mencionando que este propõe-nos uma busca pela verdade, um crescimento individual e a necessidade de nos focarmos muitas vezes na pergunta permanente. No seu entender, todos temos que formular as perguntas que projectam o futuro. Por fim, rematou uma afirmação enigmática: “A literatura não salva o mundo, mas o mundo não se salva sem a literatura”.

Cristina Marques (moderadora) em conversa com o escritor e antigo Ministro da Justiça – Álvaro Laborinho Lúcio


Na segunda parte da cerimónia de abertura do Festival Literário de Ovar, teve lugar o “Ensaio sobre a Cegueira” dinamizado pela Companhia de Dança Contemporânea de Évora e inspirado na obra conceituada de José Saramago. A encenação retrata, através de uma coreografia sincronizada entre os três intérpretes em palco, o comportamento do ser humano em situações de crise ou violência.

Através desta representação, pretende-se transmitir a ideia de que a verdadeira “cegueira” acontece quando a crueldade, a injustiça e a indiferença humanas sentenciam sociedades ao fiasco. O cenário de um mundo corrompido, quase em estado terminal, em que conseguimos sentir o cheiro da putrefação, do amontoar de lixo que podem ser ou até gerar as pessoas. Por outras palavras, o poder da palavra tenta abrir os olhos das pessoas, servindo a causa cívica, porque afinal o “verdadeiro cego é aquele que não quer ver”.


Intérpretes da Companhia de Dança Contemporânea de Évora apresentaram uma coreografia em torno do “Ensaio sobre a Cegueira”


Créditos da Imagem: Câmara Municipal de Ovar