“Imaginem… Uma comunidade” (Opinião)

17 de Março, 2024 0 Por A Voz de Esmoriz

Eles são muitos, mas não se conseguem identificar, nem são identificados pelos outros. Eles vivem entre outros, que são a maioria. Eles têm uma língua e uma cultura distintas. Os outros não notam que eles estão por ali, mesmo quando eles falam a sua língua entre si. Nem todos notam. Alguns, quando percebem a diferença, têm pudor dela. Outros ficam fascinados. Os outros têm a sua forma distinta de ver o mundo, têm os seus costumes, efemérides, regras implícitas, e possuem manifestações culturais e artísticas distintas da maioria, como o teatro, a poesia, mas que detêm as suas particularidades, e tantos detalhes que em outra oportunidade vos explicarei melhor.

No entender da maioria, eles deviam falar só e apenas a língua maioritária, por isso, eles estão há séculos a ser assimilados. Assim, estão criadas as condições sociopolíticas, especialmente através da educação, e políticas mono-linguísticas de acessibilidade, para tornar não só a maioria da sociedade, assim como o seu ambiente circundante, hostil. Através de avanços tecnológicos, existem uns aparelhos que se colocam no corpo desses seres diferentes, e uns podem remover-se e outros não, mas são colocados no corpo para que essa assimilação seja suave. Não é. As crianças são logo colocadas em terapias e reabilitação, para aprenderem a serem, ou aliás, parecerem membros da maioria.

Quem achar que o texto acima é ficção, esta é a realidade da Comunidade Surda no mundo actual. E todos os Surdos que conheço são forçosamente activistas no seu quotidiano, porque não passa um dia que não sejam confrontados com barreiras de comunicação e direitos suprimidos. Em Portugal, usa-se a Língua Gestual Portuguesa (LGP) e a Cultura Surda está viva, ainda que não existam muitas instituições que a fomentem ou acolham. É uma cultura oprimida, tal como a LGP é uma língua em risco. No entanto, enquanto tivermos pessoas Surdas, teremos línguas gestuais, como disse o sábio George Veditz (1913). A Cultura Surda emerge sustentada pela língua gestual e como qualquer língua e cultura – alimentam-se mutuamente. Existem, por exemplo, géneros literários em Literatura Surda que não existem em línguas orais, como o Visual Vernacular ou poesia só com determinados tipos de configurações manuais ou tipos de gestos (poesia com o alfabeto manual ou com classificadores). Existem jogos, tradições, expressões idiomáticas, anedotas… existe um universo que passa despercebido a quem não sabe LGP. Eu sou uma sortuda por tê-la aprendido na adolescência e a LGP e a Cultura Surda mudaram a minha vida. As idiossincrasias de uma cultura visual extrapolam em muito qualquer texto escrito ao qual estou limitada por comunicar desta forma. Teria de vos mostrar.

Temos ainda de aprender que eles e outros, somos nós todos. A Humanidade beneficia com a diversidade, aprendendo a respeitar o direito do outro existir e de ter a sua identidade, cultura e língua. A identidade Surda, a LGP e a Cultura Surda,são diferentes, o que é positivo, e apesar de estarem em risco de extinção resistem visíveis, mesmo que as queiram apagar.

(Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico)

Cristina Gil

Cristina Gil é fluente em LGP, investigadora em Cultura Surda, com um doutoramento em que cruzou Estudos Surdos, Estudos de Cultura e Estudos de Utopia, cunhando o neologismo Deaftopia (2020). Ensina futuros intérpretes de LGP na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal e é co-fundadora do Deaf Studies Lab (CECC). É ouvinte, motard, e fascinada por arte e cultura. É através da sua prática profissional que exerce o seu ativismo pela defesa da Cultura Surda, línguas gestuais e pelos direitos das pessoas Surdas existirem.