RÚBRICA “À PROVA DOS NOVE”
Nove questões, nove respostas. Vamos saber a opinião de cada um dos candidatos à Câmara Municipal de Ovar. O convidado de hoje da nossa rubrica é Mário Manaia, candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Ovar, arquiteto e deputado municipal, e com ligações ao associativismo, pelo que iremos agora avançar com a entrevista.
1- Poderia descrever brevemente o seu percurso profissional e associativo, para que os eleitores conheçam melhor quem é o candidato?
R: Antes de mais, queria agradecer o convite da Radio Voz de Esmoriz, e desde já, lançar votos para que possa recuperar espaços de programação de comentário e debate político frequente, como existiu até ao início do mandato que agora termina.
Quanto à pergunta propriamente dita, sou residente em Esmoriz há cerca de uma década, sendo que antes vivi aqui ao lado, onde aliás ainda trabalho, em Espinho.
Em termos de percurso académico, foi essencialmente no ensino público em Coimbra, de onde sou natural, frequentei também o conservatório de música (violino) e mais tarde fiz o curso de Arquitetura na Universidade de Coimbra. Alguns anos depois, e porque houve uma avalanche de desemprego provocada pela Troika, que afetou também os jovens arquitetos, decidi aproveitar a incerteza que se vivia para voltar à escola, e fui fazer um Master – especialização- em “Arquitetura e Sustentabilidade”, na UPC de Barcelona.
Imediatamente depois, relacionei-me com colegas arquitetos e fizemos vários “papers”, ou seja, artigos científicos. Pouco depois fui laureado pela U. Aveiro – nas Jornadas Casa Passiva 14’; e logo a seguir, mais por curiosidade do que por ter um objetivo de carreira muito concreto, candidatei-me a um programa de Investigação – e respetiva bolsa – no ITECONS (UC) na área de Eficiência Energética de Edifícios. Não apenas cumpri os objetivos previstos, como pude aprender muitas outras coisas – até porque estava “sozinho” num ecossistema de engenheiros. Entre muitas atividades extra, integrei equipas de candidaturas a projetos de investigação nacionais e europeus. A montagem destas candidaturas é, no fundo, uma competição internacional muito competitiva, e fiquei muito feliz por me ter sido confiada a coordenação de uma dessas candidaturas que, entre várias que estavam a decorrer no ITeCons, foi uma de apenas duas que foram ganhadoras.
Na frente cívica, incorporei várias Associações de Estudantes (na escola secundária e no conservatório de música), mas foi só em 2007 que, por “imposição” na minha esposa, ajudei a fundar a Associação “Maranimais”, uma associação sem fins lucrativos que se tem evidenciado no nosso concelho na ajuda, proteção e alojamento a animais em situações de risco e reintegração de animais vítimas de abandono e maus-tratos.
Entretanto e já depois de fazer 40 anos – e porque estava registado no “checklist” de objetivos de vida – tornei-me militante do Bloco e aproximei-me dos camaradas de Ovar.
Felizmente apostaram em mim para encabeçar a candidatura de 2021 à Assembleia Municipal de Ovar, e tenho sido deputado municipal desde então.
Mais recentemente e em linha com a indignação cidadã que se levantou pela péssima gestão, pela gestão danosa da nossa floresta… da floresta pública do Perímetro Florestal das Dunas de Ovar (PFDO), interessei-me muito pelo tema que necessita de reação imediata, e pude contribuir (alguma coisa) para a organização e fundação da Associação “+ Pinhal”.
2- Quais as principais razões que o levaram a apresentar esta candidatura?
R: Em primeiro lugar, a confiança demonstrada pelos meus camaradas de partido. Em segundo e pela experiência ganha em 4 anos de trabalho na Assembleia Municipal, de grande entrega, de profundidade “máxima” dentro das minhas limitações sobretudo de tempo, creio ter aprendido muitíssimo e tenho recebido reconhecimento também dos outros partidos. Obviamente que senti o peso da responsabilidade, e portanto, disponibilizei-me para esta luta política e para o debate dos problemas que mais nos afligem e mais preocupam os vareiros. Quem tem acompanhado os trabalhos da A.M, saberá que tenho sido incansável na fiscalização do executivo camarário, mas também na criação de pontes e consensos. Diria mesmo, corajoso, na denuncia de grandes injustiças e opacidades que vêm acontecendo nesta governação do PSD. Infelizmente, tenho vindo a “sentir na pele” uma evidente retaliação pessoal e sobretudo profissional por esta “coragem” e frontalidade.
3- Qual deve ser, na sua opinião, o papel do Presidente da Câmara Municipal de Ovar junto da comunidade e que qualidades considera essenciais para desempenhar o cargo?
R: Acima de tudo, somos muito críticos desta “personalização”, desta convergência numa só pessoa daquilo que deveria ser o escrutínio de uma equipa multidisciplinar. E todos sabemos que não há “superhomens” (ou mulheres), apesar de muita gente insistir nessa fórmula mediática. Digo isto por exemplo, olhando ao desempenho dos vereadores no atual executivo, com um enorme contraste quer de qualidades, de qualificações, mas sobretudo de capacidade de concretização, de eficácia demonstrada. Tivemos literalmente desde o 8 ao 80!
Mais do que estar aqui a delinear o perfil do candidato ideal, parece-me mais pertinente destacar algumas características que deveríamos exigir: para além da entrega a 100%, ou seja, o afastamento das atividades e interesses empresariais que muitos trazem na bagagem, creio que Ovar precisa de um rejuvenescimento profundo, não apenas nas lideranças políticas, mas também nas suas extensões diretas nas chefias de alguns dos serviços camarários. É crucial decidirmos, em comunidade, dar oportunidade e confiar nas novas gerações, nos mais bem qualificados e experimentados nas suas vidas académicas e profissionais.
Mas insisto, mais importante do que a “figura de capa” são mesmo os programas, as políticas e os compromissos que as diferentes candidaturas estão a assumir.
4- Acredita que o concelho de Ovar tem potencial para evoluir mais? Em que áreas vê maior margem para progresso?
R: É evidente, basta comparar Ovar com outros municípios semelhantes em termos de dimensão e demografia, com um olhar a 30 anos. Se ao nível da Cultura temos visto alguns avanços nos últimos 10 anos, ao nível do acesso aos serviços de saúde de proximidade, ao nível da falta de investimento e rapidez na concretização de reabilitação das nossas escolas, na falta de interesse na criação de Habitação Pública para contrariar a especulação imobiliária, ou mesmo na questão da gestão danosa da nossa floresta, em particular nos últimos anos, são aspetos que têm sido claramente dececionantes, senão mesmo revoltantes!
E mesmo ao nível empresarial, o que temos visto é um congelamento do desenvolvimento das nossas zonas industriais.
E tudo isto se tem refletido na prestação de contas anuais camarárias, onde temos verificado que este executivo do PSD tem vindo a atingir novos máximos na Aquisição de Bens e Serviços, e novos mínimos na capacidade de executar obra, ou seja, na Despesa de Capital.
Tem sido uma gestão de navegação à vista, com pouca capacidade reformista ou a capacidade de persecução de objetivos realmente impactantes de longo prazo, com exceção para o Programa 1º Drt.
Muitas têm sido prioridades supérfluas, com imenso “foguetório” e artistas “pimba” em todo lado ao mesmo tempo (durante o verão), ou mais recentemente com o mega evento dos jovens escuteiros católicos a acampar em Cortegaça – o que foi socialmente positivo – mas que culminou com a oferta de um edifício novo de 800 mil euros do erário publico municipal, mais o terreno, entregue (salvo erro) à Federação Escutista de Portugal. À cabeça não foi salvaguardada uma utilização alargada, por exemplo, para servir de casa a muitas das nossas associações e coletividades órfãs de sede. O “lettering” gravado no muro desse equipamento não deixa espaço para dúvidas!
5- Quais são, no seu entender, as principais necessidades do concelho que devem ser resolvidas no próximo mandato?
R: Na sessão da Assembleia Municipal (AMO) de comemoração do 25 de Abril, onde lançamos esta candidatura, tivemos a oportunidade de criar um fio condutor que liga as promessas por cumprir do 25 de Abril às ameaças do cenário geopolítico internacional atual, com enfoque para a deriva extremista de Trump e do seu amigo Putin, passando pela crítica às políticas europeias de subjugação às chantagens de ambos, e culminando no impacto concreto que (estas politicas extremadas) terão no quotidiano de Ovar e dos munícipes. A título de exemplo, focámos duas das promessas de Abril que ainda estão por cumprir na sua plenitude: Trabalho e Habitação. Como forma de resistência a esta frente ultraliberal concertada, lançámos reflexões e propostas muito concretas, de construção de alternativas socialistas nas políticas municipais, às quais juntamos agora mais alguns tópicos. Sinteticamente julgamos ser prioritário:
• Nova habitação pública em Ovar, na continuidade do programa 1º Direito, que na essência está a reabilitar habitação social existente e que estava muito degradada. É evidente que temos de aproveitar o know-how desenvolvido neste processo para dar o salto, também na criação de novos polos de habitação, privilegiando zonas já urbanizadas e infraestruturadas, orientada também para a classe média e na modalidade de arrendamento acessível e/ou arrendamento apoiado, para fazer frente à crise habitacional regional e à especulação imobiliária. Daí a nossa proposta de criar 400 novos fogos de habitação em 4 anos, em linha com o objetivo de alcançar 5% de Habitação Pública até 2030, prevista pelo “Programa Nacional de Habitação” (PNH), e sustentado pela “Nova Geração de Políticas de Habitação”, desenhadas ainda no governo da “geringonça”. Aliás, em comparação com cidades centro e norte europeias, que apresentam valores entre 15% e 50% de habitação publica, Ovar ainda não alcançou sequer 1%! É absolutamente estratégico e prioritário, ainda mais quando a própria EU vem lançando pacotes de Fundos Estruturais dedicados a isto mesmo, juntamente com as linhas de crédito do Banco Europeu de Investimento, que vêm sendo anunciadas pelos sucessivos governos nacionais.
Outro aspeto muito “batalhado” tem sido a questão da Gestão Florestal, que desde há anos tem vindo a maltratar a nossa floresta, apesar dos enormes encaixes financeiros que a extração de madeira e resinagem têm proporcionado, quer às autarquias, quer ao próprio ICNF. Temos vindo a propor, entre muitas matérias de detalhe técnico, o reinvestimento na gestão florestal das receitas colhidas pela nossa floresta, chamando à co-ação “atores” locais e regionais, nomeadamente associações ambientais e a própria academia. Simplesmente não podemos ficar de braços cruzados com a imposição de extração de mais de 362 hectares (ha) do nosso pinhal (PFDO) até 2038!
Felizmente temos tido uma grande reação de indignação da nossa população. Já o executivo municipal do PSD tem-se manifestado “totalmente alinhado” com este Plano de Gestão Florestal, operacionalizado pelo ICNF. Mas pior, este executivo municipal veio recentemente pedir a desafetação de mais de 62ha de floresta do PFDO, a propósito da venda de uma fatia de 20ha a uma poderosa empresa de espumas, num negócio nada transparente e grosseiramente ruinoso para o erário público, que obriga a CM a entregar o tal terreno livre de ónus, já convertido para solo urbano – industrial, em troca de apenas 1.5 milhoes de euros, ou seja, 8x a 10x menos que o valor estimado de mercado. E juntou ao pacote a “fantástica” compra de 80ha na Serra da Malcata (Penamacor) por 200 mil euros, para oferecer de bandeja ao ICNF, como medida de compensação! No final de contas, ficamos tod@s a perder mais de 10 milhões de euros, e não consta que a CM se tenha tornado acionista desta empresa! Foi por isto que convidámos a RTP a vir investigar, e com o contributo de técnicos e associações ambientalistas, fizeram uma fantástica peça de jornalismo, no programa “Prova dos Factos”. A ver e rever antes de votar! É por isto também que atualmente o assunto está a ser investigado, tal como muitas outras matérias “nebulosas”, pelas entidades judiciais competentes.
Finalmente temos a prioridade da Reabertura da Urgência hospitalar (Hospital Dr. Francisco Zagalo, Ovar), a par do necessário reinvestimento em valências e recursos humanos nos nossos Centros de Saúde, para garantir um pacote equilibrado de respostas na saúde de proximidade de qualidade.
Recordamos que nos últimos anos, e em particular no passado mês de outubro, a propósito da negociação do Orçamento de Estado, o Bloco de Ovar fez chegar à Assembleia da República uma proposta de Reabertura da Urgência hospitalar e outras medidas de valorização da saúde municipal. Foi o PSD do então deputado, o Engº Salvador Malheiro, quem chumbou essa proposta, e o PS absteve-se, ou seja, achou bem que a medida não fosse aprovada! Quando trouxe este assunto à A.M.Ovar, vieram todos, muito indignados, dizer que os respetivos partidos em Lisboa eram diferentes dos de Ovar! A verdade é que “o Bloco só tem uma cara”, aqui, em Lisboa ou em Bruxelas, e assumimos o compromisso de “voltar à carga” com novas propostas semelhantes, para que os mais de 55 mil vareiros também tenham direito à assistência de urgência e a cuidados de Saúde de proximidade.
6- Caso seja eleito, quais os cinco projetos ou medidas prioritárias que pretende implementar no concelho de Ovar entre 2025 e 2029?
R: Teria de ser muito arrogante para achar que, de repente e contra todas as estatísticas, a comunidade vareira iria confiar-nos já o barco da governação municipal. A conquista da confiança tem de ser criada ao longo de anos, e por isso vamos continuar a nossa missão de auscultação da população, de fiscalização “apertada” dos executivos autárquicos e serviços municipais, entre muitas outras exigências que nos auto-impomos na construção de uma democracia municipal transparente, progressista e exigente.
Obviamente que vamos bater-nos pela consolidação do voto à Esquerda, pelo fortalecimento da nossa representação na Assembleia Municipal: se com apenas 1 deputado nos últimos 4 anos fizemos tanto, destapámos tantas “mantas de opacidade”, imaginem o que faremos com uma dúzia!
Vamos igualmente bater-nos pela eleição na Assembleia de Freguesia de Ovar, onde temos um timoneiro com um curriculum difícil de igualar, e uma equipa jovem e bastante qualificada, para ajudar a concretizar mudanças e reforços realmente significativos na vida das pessoas, em particular “nos de baixo”.
E depois, decorrente da força do voto que nos confiarem, iremos obviamente defender as medidas programáticas que enunciei, entre muitas outras constantes do nosso programa eleitoral, que poderão consultar (em breve) no nosso Portal Autárquico.
7- Como descreveria a equipa que o acompanha nesta candidatura?
R: É uma equipa muito dedicada, de gente bem formada, muito ativa nas coletividades e na comunidade, jovens e jovens de espírito com muitas batalhas travadas, mas muita motivação em continuar a batalhar e sobretudo, a ensinar e partilhar conhecimento com os demais. É fantástico podermos crescer individualmente com os aportes dos outros, e vice-versa. E estou constantemente a surpreender-me com as novas valências que vão surgindo, exatamente por criarmos um espírito de equidade, em que todos assumimos sermos “tratores” e “arados”, não há lugar para “mordomias” nem “principados”, ou seja, todos contribuem de igual modo nas diferentes tarefas, nas reflexões e na construção “horizontal” (ao invés de piramidal) de um grupo, de um partido, da mesma forma como sonhamos o progresso da sociedade.
Mas convém esclarecer que as principais equipas já estão criadas, seja nos serviços camarários, seja na sociedade civil, nas IPSS, nas associações e demais coletividades. É com todas essas pessoas que queremos fazer equipa, queremos aprender e contribuir para concretizar projetos e melhorias objetivas na vida real das pessoas e das famílias.
8- Que posição tem sobre temas emergentes como: a preservação da Ria, da Barrinha e da orla costeira, a mobilidade e os transportes no concelho ou o apoio social a famílias e idosos?
R: A questão da Ria e da Barrinha podem ser englobadas, uma vez que têm estado sob a égide da Polis Litoral Ria de Aveiro, SA. Os investimentos e as obras aprovadas têm acontecido a conta-gotas,e o relatório da Polis diz-nos que o “Reordenamento e qualificação das frentes marítimas de Esmoriz e Cortegaça” ficou por fazer. Achamos que a C.M. tem de ter um papel dinamizador e fiscalizador nestas frentes, mas também “provocador” de melhorias e capacitação nestes territórios, que são ecossistemas muito sensíveis, mas simultaneamente verdadeiras “riquezas” de fauna e flora, muito diferenciadas e com enorme potencial turístico – de natureza – mas também desportivo e de lazer. E claro, falta um enorme compromisso intermunicipal para, de forma séria implacável, monitorizar e penalizar quem repetida e irresponsavelmente faz descargas ilegais nos cursos hídricos a montante. Também aqui está muito por fazer, e também aqui terão de ser chamadas à co-ação as associações ambientalistas, desportivas, e demais interessados, para uma estratégia coletiva de cuidar e valorizar as nossas riquezas naturais.
Quanto à mobilidade e transportes, temos a salientar que, depois de muitas lutas travadas ao longo dos últimos anos, Ovar pode hoje contar com uma rede de transporte rodoviário de carácter intermunicipal (CIRA), ainda que as clausulas contratuais exijam que sejam as Autarquias a criar e/ou requalificar as paragens e demais infraestrutura fisica. Temos vindo a exigir, na AMO, a instalação de paragens com abrigos e assentos (mesmo que em 2ª mão!), bem como a criação de baias de paragem para os autocarros, que garantam a segurança e acessibilidade dos utilizadores.
Mas sendo um projeto recente, ainda há muito para melhorar para garantir trajetos (carreiras), frequência, fiabilidade e acessibilidade ajustadas às necessidades da população.
Ao nível da mobilidade suave, será necessário estender a atual rede de ciclovias – que têm um carácter turístico – para uma rede urbana que conecte zonas industriais, escolas, habitacionais e centrais de serviços, com a segurança e dignidade que vemos noutras cidades norte e centro-europeias.
Mas mais, para atingirmos os compromissos climáticos assumidos (Acordo de Paris 2015), para além da promoção de transportes públicos regulares e acessíveis e modos suaves de transporte, que permitam equacionar a redução do uso do automóvel privado, é igualmente necessário promover a inscrição nos planos urbanísticos de uma rede municipal integral de passeios e a pedonalização de zonas centrais – uma espinha dorsal de mobilidade cidadã.
Finalmente, para sinalizar este compromisso como prioritário e essencial na busca pela neutralidade carbónica, haverá que promover a alteração de hábitos de mobilidade e inverter o paradigma da necessidade do automóvel individual.
Para isso, apostamos na gratuitidade nos transportes públicos rodoviários, mesmo que a título experimental, para mais tarde avaliar e reajustar, de acordo com os resultados e impacte obtidos.
No campo mais restrito ao Desenvolvimento Social e Saúde, para além das medidas lançadas que terão enorme impacte na redução de desigualdades sociais, urge concentrar atenção a outros aspetos igualmente importantes.
Na educação, e porque temos números preocupantes, nomeadamente com apenas 17% de vareiros com Ensino Superior, e apenas 19% com o 3º ciclo do Ensino Básico, haverá que impulsionar uma alteração de mentalidade, e envolver a comunidade para um Plano Municipal para a “valorização da Educação”. Este pilar de Abril necessita de investimento para a reabilitação de escolas, atualização de materiais e tecnologias letivas, reforço e valorização de recursos humanos ou a criação de estruturas municipais de apoio ao Estudo (centros de estudo e/ou ATL). Mas será também necessário reforçar as bolsas de estudo que, no ano passado ficaram-se pelas 84, e com um apoio mensal de 100€. É evidente que este valor é irrelevante para quem não tem qualquer retaguarda familiar. Mesmo que a verba duplicasse, seria ainda anedoticamente insuficiente! Enquanto comunidade, se quisermos mesmo atacar desigualdades estruturais, que são muito profundas no nosso município, teremos de exigir muito mais!
Será necessário auxiliar as famílias também através da criação uma rede Municipal de Creches, de oferta pública e gratuita com abrangência a 100% do território. Isto faz-se, naturalmente, com o apoio da capacitação instalada de iniciativa privada e IPSS, complementado com a criação de novas, eventualmente assentes nas infraestruturas de ensino básico e com o apoio dos agrupamentos e ecossistema escolar.
Tal como na educação e creches, também na 3ª idade é necessário o reforço dos serviços públicos no apoio aos seniores, muitas vezes reféns da família e de condições de habitabilidade e salubridade críticas. A fase de envelhecimento deve ser vivida num ambiente acolhedor, com dignidade e sem restrições ao tamanho da carteira de cada um, pelo que propomos uma Rede Municipal de lares e habitações comunitárias séniores, adaptadas às dificuldades de mobilidade e dotadas de medidas de eficiência energética.
Também uma palavra sobre políticas de bem-estar animal. Relembro que a Lei n.º 27/2016 atribui ao Estado, por meio dos centros de recolha oficial (CRO), as obrigações de captura, vacinação e esterilização dos animais errantes e a Portaria n.º 146/2017 vem esclarecer que, na prática, é às câmaras municipais que compete realizar a captura e recolha desses animais errantes.
Em contraciclo, foi já na recente Assembleia Municipal (AMO) de 27 de Junho que o executivo do PSD (e respetiva bancada na AMO) suprimiu, quer do atual orçamento municipal, quer da projeção financeira para 2026, a verba de €100.000 referente ao projeto “Centro Intermunicipal de Recolha Oficial de Animais – CIROA”, em detrimento de outras prioridades. É uma péssima notícia para quem prioriza o bem-estar animal, que um projeto intermunicipal, com projetos de execução feitos e pagos e com concurso lançado em 2020, esteja neste momento suspenso, sem datas conhecidas para ir para o terreno, e finalmente, sem verbas asseguradas.
O Bloco denunciou mais esta “guinada” do PSD. Mas mais importante, é necessário dar soluções ao problema de saúde publica que, na atualidade está completamente sobre os ombros das Associações que atuam no município, e que têm, corajosa e voluntariamente, substituído o papel do estado, mesmo que de forma precária e muito pouco meios financeiros. A título imediato, é necessário rever os protocolos de ajuda a estas associações, para garantir mais meios e capacitação, ou mesmo a criação conjunta de abrigos de animais errantes. Paralelamente, é necessária a criação e/ou reforço de serviços veterinários municipais, tendencialmente gratuitos e/ou com tarifa social, destinados a famílias com baixos rendimentos, assegurando o acesso a cuidados básicos de saúde animal e a campanhas de vacinação e esterilização.
Finalmente, não podemos descurar o desenvolvimento empresarial e empreendedorismo, sob pena de continuarmos a assistir a tratamentos desiguais em função de critérios arbitrários e opacos, assente nos “contactos especiais” e outras relações privilegiadas. Por isso mesmo, temo-nos batido pelo desenvolvimento de uma estratégia ambiciosa e alargada para a captação e fixação de investimento que privilegie a “economia verde”, a valorização salarial, de carreiras e competências profissionais, e que venha potenciar a fixação de jovens famílias e profissionais qualificados.
Por comparação, esta última década não viu qualquer avanço na valorização das zonas Industriais de Ovar, as respetivas ligações rodoviárias, nem tampouco o “Plano Municipal de Concessão de Incentivos ao Investimento Empresarial” foi revisto ou atualizado aos novos tempos, exigências e contrapartidas necessárias. Por outro lado, temos assistido a tratamento privilegiado a determinados interesses e empresas poderosas, com prejuízo não apenas do erário publico, mas sobretudo em prejuízo da concorrência leal e regras iguais para todos. São obviamente sinais preocupantes que este executivo do PSD deixa de legado perante as empresas e/ou investidores que aqui queiram fomentar e potenciar o ecossistema económico, com impacte direto no social e ambiental.
9- Na qualidade de candidato, que mensagem final gostaria de deixar aos eleitores do concelho de Ovar?
R: Mesmo correndo o risco de soar “paternalista” ou “moralista”, não podemos deixar de (tentar) sensibilizar as e os munícipes para que se informem e leiam os programas e propostas, perfil e curriculum das equipas candidatas. Tentem “despir-se” de preconceitos obsoletos, da opinião “cristalizada” do vizinho, ou ainda dos “clubismos” de sempre. Duvidem sempre das “ladainhas”, das “soluções simplistas” para problemas complexos e da “promessa fácil” sem enquadramento orçamental e financiamento devidamente justificado.
Temos de EXIGIR representantes capacitados e competentes, enérgicos e corajosos, plenamente idóneos e sem “rabos de palha”: serão estas pessoas que farão a gestão do erário publico, feito com os impostos pagos por cada um e uma de nós. Infelizmente julgamos que não serão muitos os que estão, comprovadamente, de corpo e alma dedicados a “servir a causa pública” sem procura de contrapartidas pessoais, familiares ou carreiristas.
Por último, tal como demonstrámos durante o período da “geringonça”, é tão importante o voto na força que gostaríamos de ver a liderar, como nas forças que precisamos que façam o trabalho de escrutínio, de fiscalização, de exigência na concretização dos compromissos assumidos.
A riqueza da democracia faz-se com pluralidade de opinião e capacidade de alcançar compromissos, e há muito que o Bloco vem demonstrando a responsabilidade democrática para “equilibrar os pratos da balança” e fazer vingar o valor do voto de cada um e uma de nós.
Sê exigente, vota melhor. Vota Bloco!
Agradecemos, desde já, o tempo que nos concedeu.
