“Rui Nabeiro, um homem de classe” (Opinião)

25 de Março, 2023 0 Por A Voz de Esmoriz

No passado dia 19 de Março, Portugal perdeu uma das personalidades mais consensuais – o empresário e comendador Rui Nabeiro. Com 91 anos, não resistiu a graves problemas respiratórios. Para trás, fica uma vida bela em feitos. Já dizia o físico genial Albert Einstein “não tente ser uma pessoa de sucesso, tente antes ser uma pessoa de valor”. Mas, na verdade, Rui Nabeiro conseguiu ser as duas.

Foi uma pessoa de sucesso porque trabalhou arduamente para isso, evidenciou visão e fundou o Delta Cafés em 1961. O seu grupo lidera hoje o mercado dos cafés em Portugal, e conhece igualmente uma expansão clara no mercado internacional (o seu café é exportado para mais de 40 países, incluindo Angola, Cabo Verde, Bélgica ou Estados Unidos da América). Actualmente, o seu grupo emprega mais de 3 mil trabalhadores.

Mas também foi uma pessoa de valor porque revelava altos padrões éticos. Nunca vimos o seu nome associado a uma injustiça ou a um escândalo público. Dizia-se até que nunca tinha despedido qualquer funcionário, o que a confirmar-se, seria um caso quase único no panorama nacional. A verdade é que criou milhares de empregos e ajudou muita gente, garantindo aos seus trabalhadores condições justas e condignas. Rui Nabeiro devido ao seu mérito, esforço (começou a trabalhar com apenas 12 anos na mercearia dos seus pais), abnegação e carácter ético tornou-se numa espécie de protótipo de empresário de excelência. Por outras palavras, um ideal de liderança, um oásis talvez num mundo empresarial em que, muitas vezes, tudo vale para atingir os objectivos e em que os colaboradores ou funcionários muitas vezes são apenas tratados como meros números. Claro que ainda há bons patrões e decerto que Rui Nabeiro irá inspirar gerações mais novas (o seu exemplo é leccionado em cursos universitários de gestão), mas o país não caminha para tempos de bonança, atendendo à inflação galopante que hoje testemunhamos.

Rui Nabeiro nunca se desligou do seu Alentejo, e foi uma das alavancas do desenvolvimento possível desta região, muitas vezes esquecida pelos nossos governantes. Que o diga Campo Maior que cresceu bastante graças à sua dedicação. Recusou vender a sua empresa apesar de ter recebido propostas tentadoras ou até a mudar a sede do seu Grupo (implantada em Campo Maior). Por outro lado, apoiou ainda diversas causas sociais.

Rui Nabeiro alcançou tudo isto, e só tinha concluído a 4ª classe, e melhor do que ninguém, soube enfrentar as adversidades e vencer na vida, ajudando outros também a alcançarem o seu próprio propósito existencial. Na verdade, a riqueza que acumulou, prontamente foi distribuída pela comunidade e pelos seus funcionários. Para este benemérito, o “ser humano estava sempre à frente de tudo”.

Lamentamos todos a partida de Rui Nabeiro talvez porque é raro um empresário ser tão consensual como ele foi, acima de qualquer suspeita ou dúvida, e sempre com um carácter humanista notável. Houvesse mais empresários assim, e o nível de vida dos portugueses seria bem melhor.


Artigo da autoria de Pedro Henriques

Director do Jornal A Voz de Esmoriz


Créditos da Imagem: Revista Visão